sábado, 23 de janeiro de 2010

Capítulo II - Eva

     "Uau! Como a noite é linda!". Foi a primeira coisa que Emílio pensou, quando saiu do suntuoso mausoléu. Mas ainda estava intrigado. Quem era aquele homem, que lhe socorria? Aparentava seus quarenta e poucos anos, fisicamente, mas tinha um olhar enigmático. Agia como um adolescente, jovial demais, mas parecia muito experiente.

     - Quantos anos você tem?
     - Opa! Devagar com o andor, meu amigo! Nunca lhe disseram que é falta de educação perguntar a idade?
     - Você não me disse nem o seu nome. Eu tinha que saber alguma...
     - Lionel Giardini, seu criado! Tinha vinte e um anos, quando fui vampirizado.
     - Vampiros envelhecem?
     - Você está muito indiscreto, meu rapaz!
     - Desculpe. Giardini? Você não é daqui, é?
     - Vivo no Brasil há bastante tempo, se é o que quer saber. Ainda encontro aquele maldito Napoleão, uma outra vez, e acabo com a raça dele!
     - Ele também é vampiro?
     - Não seja ridículo! Claro que não!
     - Então, o que ele tem Napoleão?
     - Esquece isso! Você não se sente mais leve? Mais desprendido de medos espirituais?
     - Ainda não deu tempo de perceber, mas... eu acho que entendo...
     - Você não tem mais medos do inferno ou de toda essa baboseira, porque não tem mais espírito! Sua alma foi libertada, meu amigo! Ela não está mais por aqui. É isso que nos faz vampiros, entende? O sangue é a alma da carne. Você tem as lembranças de Emílio, você tem a identidade de Emílio, você tem tudo de Emílio, mas não é mais Emílio. Sinto lhe dizer! Emílio morreu! Salvei apenas a vida de seu corpo. Mas, não se preocupe. Sua alma voltará, um dia.
     - Quer dizer que, quando eu morrer, tudo vai acabar?
     - Ai, que drama! Sim, para você, sim. Tudo vai acabar para você. Mas, um dia, você vai desejar isso. E, aí, poderá aproveitar a oportunidade, antes que a depressão passe. Mas, vou logo lhe avisando, viver muito não dá aquela paranóia de a vida perder a graça, não. As coisas mudam muito rapidamente, ainda mais hoje em dia! Sempre há novidades para experimentar.
     - Então, é assim que as coisas são...
     - Assim, mesmo! Então, não é melhor deixar de papo furado? É hora de aproveitar!

     Chegaram a uma multidão, parecia alguma festividade religiosa, dia de "São alguma coisa". Havia barracas com espetinho, de um lado, e um parque com filas enormes de crianças, para os carrinhos de bate-bate e casais para a roda gigante.

     - Alguém já encontrou a própria alma? Quer dizer, você já soube de algum caso?
     - E como iam se reconhecer? Você, por acaso, lembra de alguma outra vida?
     - Claro que não!
     - Então! De uma vida para outra, a alma não lembra de praticamente nada. E, não sei se você já percebeu que nossa percepção do mundo muda, mas não consegue enxergar as almas, consegue?
     - É verdade! - Emílio estava hipnotizado com o que ocorria à sua volta -  Não é lindo o som da noite?
     - Lindo! E a noite tem sons diferentes em cada lugar do mundo, nunca se repete. Você vai ver!

     Sem razão aparente, Lionel saiu correndo, desaparecendo na multidão. Deixou Emílio, ainda tentando se encontrar. Emílio nunca havia percebido como é gostoso o cheiro de gente. Não o de perfume. O de gente. Dava, mesmo, vontade de morder e chupar até a alma. Deve ser por isso que se faz tão mau juízo dos vampiros. Algum, certamente, não se conteve e...
     Uma linda mulher apareceu, do nada, e o puxou pelo braço.

     - Você é louco, ou o que?
     - O que?

     Ele parou, por um instante, enquanto ela o arrastava para longe, puxando-o pelo braço. Era realmente linda! Ruiva, cabelos ondulados, ao sabor do vento, belas sardas nos seios da face, e nos do decote, também.

     - Você está me ouvindo? - ela interrompe seu devaneio - Ei, acorde! Você é novato, nisso, não é?
     - Novato, eu?
     - Vamos, não estou com paciência! - ela o encosta contra a parede, e pergunta irritada, em voz baixa - Você é um vampiro há quanto tempo?
     - Dá para notar, assim?
     - Você 'tava dando uma bandeira horrível! Vamos, vamos sair daqui. Lionel está por perto, com certeza tem algum caça-vampiros por aí.
     - Caça-vampiros existem? Ei, eu conheço Lionel!
     - Não me diga que você foi transformado por ele!
     - Por que? Isso é ruim?
     - Ai, você foi! Aquele filho da... venha, temos que salvar aquele desgraçado!
     - Não estou entendendo.
     - Agora não dá tempo de conversar. Vamos!

     Ela o jogou dentro de uma capelinha e mandou que não saísse dali. E saiu, rapidamente. Ele ficou lá, sentado, recolhido, de costas para o altar. O lugar era pequeno, e Emílio o descreveria como acolhedor, não fosse o terrível medo de olhar para a cruz. Ela lhe oferecia algum risco? Quase entrou em pânico, ao perceber que havia cruzes por toda a parte. Fechou os olhos, e aguardou, impaciente. Em meia hora - que lhe pareceu um dia inteiro -, estava ela, de volta, com Lionel. Pareceria uma mãe carregando o filho pela orelha, se ela não aparentasse a metade da idade dele.

     - Seu irresponsável! Como pode vampirizar alguém, ainda por cima tão jovem, sabendo que é caçado?
     - Sou caçado há séculos! E não é modo de dizer... - sorriu, cínico, talvez com orgulho de não ter sido nunca pego - Na verdade, os últimos séculos me pareceram décadas... Ai! - a bela moça o fustigava com algo que Emílio não pôde reconhecer - Ei, ele já ia morrer, mesmo! Eu salvei ele! E, também, ninguém nunca me pegou, mesmo! Fique peixe!
     - Estou muito peixe, gracinha! E tenha modos comigo, fale como gente! Pois lembre que, sem minha intervenção, você agora seria apenas uma lembrança ruim.
     - Ei, dá para alguém me explicar que diabos está acontecendo, aqui? - reivindicou a atenção, Emílio.
     - Cuidado com o linguajar, meu caro! Você está numa capela...
     - Cale-se, Lionel! - havia um veludo na sua voz, mas isso não tornava sua ordem menos imperiosa - Deixe-me explicar, meu jovem. Como é, mesmo, o seu nome?
     - Emílio.
     - Pois bem, Emílio. Você foi transformado por este irresponsável aqui. Não acredite em uma palavra do que ele diz. Não dá para escrever tudo o que ele diz. Lionel causa muitos problemas em todos os lugares aonde vai. Por isso, foi degredado de nossa comunidade e está sendo impiedosamente perseguido em cada canto do mundo. A qualquer momento, conseguirão dar cabo dele. Ele é a cabeça mais cara de todas a prêmio, e os caçadores de vampiros já estão tendo que dividir espaço com alguns aventureiros, caçadores de recompensa. - dirige-se, agora, a Lionel - Aliás, se não foi pego, ainda, é porque alguns desses caras só atrapalham tudo, com estacas e crucifixos... Pois bem, se ele for eliminado, você pode dar adeus a esse mundo. Acabou, pra você, também! Você me entende?

     - Quer dizer que eu estou sujeito a morrer a qualquer momento? Sempre vou depender da astúcia desse aí?
     - Está, sim. Terá que velar pela sua vida, e pela dele, se quer viver. Mas isso não é para sempre, não. Depois de algum tempo, sua vida ganha independência, e vai poder se livrar desse canalha.
     - Então, estou entregue à sorte, por enquanto? - "É", ela respondeu - Por quanto tempo?
     - Não se sabe ao certo. Alguns vampiros passam décadas; outros, meses.
     - Quer dizer que devo passar meses, ou até anos, para me livrar?
     - Alguns entre nós tornaram-se lendas, alcançando a independência em tempo recorde. Há um vampiro muito poderoso, que passou três meses. Acho que foi o mais rápido. Mas ele já nasceu com o traquejo de quem é poderoso, não parece muito ser o seu caso. Terá muito trabalho!

     - Você já é independente há muito tempo?
     - Não se iluda com minha aparência, meu rapaz, eu poderia de ser tataravó da sua tataravó, e não gosto de fraldas...
     - Mas, eu não...
     - Não há como não perceber quando alguém quer me paquerar. Até o seu cheiro mudou, quando me viu. Agora, vamos para a sua casa. Você deve estar precisando de um bom banho!
     - Espera. Como é o seu nome?
     - Me chame de Eva.
     - Eva de que?
     - Eva!


Pablo de Araújo Gomes