sábado, 16 de janeiro de 2010

Capítulo I - O 1° Dia de Vampiro


     Ele era um vampiro. Acabara de ficar sabendo. Na verdade, ele acabava de acordar, e sabia, sem que se lhe dissesse nada, que era um vampiro. Era a sua primeira manhã como um, e ele não lembrava de nada. Sabia, apenas, como por instinto. E devia ser, mesmo, por instinto. Ele acordou completamente só, naquele lugar estranho. Era um mausoléu de luxo. Certamente, ele estaria em um cemitério.

     De que conseguia lembrar? Tinha a vaga impressão de ter sido atacado. Mas nada que lembrasse o que lera nos livros. Nada parecido com aquela morte agonizante que precede o renascer para a nova vida, como vampiro. Sentia, agora, muito frio, apesar do dia quente, lá fora. Estava sem camisa. Onde, diabos, estava sua camisa? Lá fora, o sol já nascera, e cumpria cruelmente seu papel natural de carcereiro. Mas, dentro daquele sepulcro, ele estava bem protegido.

     Caramba, que fome! Amaldiçoava sua fome, sem parar. Sentia uma fome de cão. Ou, melhor, de vampiro. Na verdade, talvez por costume, pensava, mesmo, nas torradas com cafezinho que sempre tomava no café da manhã. Não tinha lá grande interesse por sangue. Teria, ele, se transformado pela metade? Será que teria sido colocado lá para esperar um pouco, até a completa transformação? Olhou em volta, e confirmou que continuava tendo aversão a caixões. E a mortos, permanecia uma rejeição nada sutil. O que será que lhe faltava, para se tornar um vampiro completo?

     Olhou em volta, com atenção. Aquele lugar, tão belamente decorado, certamente seria o lar do seu captor. Revirou tudo o que viu. Havia um caixão fechado, por fora, e dois abertos. Conferiu, também, se não havia alguma passagem secreta: conferiu vasos de planta, as estátuas, os castiçais e o quadro com o epitáfio, sobre o caixão fechado. Em busca de uma saída subterrânea, revirou carpetes, afastou o que viu por perto. De fato, não sobrou mais nada que conferir, em busca de uma passagem secreta. Se havia uma, certamente era mágica, mas não achou que tal teoria fizesse sentido.

     Em desespero, derrubou no chão um vaso de vidro com rosas vermelhas dentro. Com o susto que levou, ao ver quebrar-se o vaso, voltou a si. Resolveu recolher os cacos, e se cortou. Por reflexo, puxou a mão, e esperou aparecer o sangue. Nada. Claro, ele era um vampiro. Mas não viu a mão se regenerar rapidamente, como já vira dezenas de vezes nos filmes. Se não se sentia à vontade em um cemitério, não era capaz de se regenerar, e não se sentia especialmente poderoso, qual era a graça de ser um vampiro? Ainda, para completar, não podia sair de lá, por causa do Sol. Procurou o seu telefone, para ligar para alguém, mas não o encontrou. Telefone, documentos, carteira, não tinha nada consigo. Se bem que, o que ele faria? Ligaria para o chefe e diria "não posso ir para o trabalho hoje, porque virei um vampiro"? Impotente e aborrecido, recostou-se no banco onde acordara, e acabou caindo no sono.


     Anoitecera, e ele nem percebeu. Um péssimo dia, este primeiro que tivera como vampiro. Seria bom que os muitos seguintes, pela eternidade, fossem bem melhores, ou não valeria a pena. Levantou-se, morrendo de fome. Já pensava em atacar a primeira pessoa que passasse na sua frente. Os dentes ainda estavam curtos, mas haveriam de aparecer na hora certa, ele pensou. Na saída do pequeno prédio fúnebre, no entanto, esbarrou num senhor que veio do nada e o empurrou, de volta, para dentro.

     - Ainda não. Entra. Não podemos ser vistos, ainda.

     Pôs no banco a sacola plástica que carregava, ao entrar. Puxou Emílio - esse é o nome do vampiro novato - pela mão e o sentou.

     - Quem é você? - perguntou Emílio.
     - Você deve estar morto de fome, né? - disse o senhor, examinando Emílio como o faria um médico. Desculpe-me! Eu trouxe um lanchinho para aliviar a sua fome, por enquanto.
     - Quem é você?
     - Não se preocupe. Logo, o cemitério fechará, e poderemos sair deste lugar horrível. Tome. Você gosta de cachorro quente?

     Emílio, confuso, mas faminto, não recusou o alimento. Retrucou, no entanto:

     - Lugar horrível? Você não vive aqui?
     - Você deve estar de brincadeira. - Viu que Emílio continuava sério - Não, não, não! O que pensa que eu sou? Um necrófilo?
     - Não é um vampiro?
     - Isso é bem verdade. Mas você também é, agora. Quer morar num mausoléu?
     - Claro que não!
     - E o que lhe faz crer que eu ia querer? Tome, você ainda não bebeu o guaraná.
     - Não vamos beber sangue? Quer dizer...
     - Ai, caramba! Parece que você vai me dar bastante trabalho. Vampiros não se alimentam de sangue, isso é lenda!
     - Até hoje de manhã, vampiros eram uma lenda, para mim.
     - Mas não somos, mais. Agora que você já sabe, aplique a lógica. Não se sabe exatamente quando surgiu o primeiro vampiro. O mais antigo que conhecemos ainda vive, e é vampiro desde algum dia no século V. Somente por esses cerca de mil e quinhentos anos, com três refeições ao dia, sabe quantas pessoas ele já teria matado?
     - Não faço idéia!
     - Deixe-me clarear a sua mente. Seriam mais de um milhão e seiscentas vidas, se ele não fizesse um só lanchinho a mais. E nós já somos alguns milhares, meu amigo! Ou nós extinguiríamos a raça humana, ou, por isso, mesmo, nos tornaríamos inimigos declarados. Não conseguiríamos ser apenas uma lenda, jamais!
     - Mas, você me mordeu!
     - Ah, é... Desculpe o mau jeito! A velha etiqueta diria que eu tinha que te dar a escolha e toda aquela baboseira. Mas eu sei que você não vai reclamar, porque já ia morrer, mesmo...
     - Ia o quê?
     - Ah, você não lembra de nada? Não sente falta de nada, não?
     - Claro! Você levou meu telefone celular, minha carteira, minha roupa...
     - Epa, peraí! Levei a sua camisa, rasgada e cheia de sangue. Acho que você não ia querer, mais. E isso aqui, que removi do seu coração, também levei. - entrega-lhe uma bala - O telefone e a carteira, foram os assaltantes quem levou!

     Emílio põe a mão no peito, ainda dolorido. Olhou para a mão, e nenhum sinal daquela ferida. Ele se regenerava rapidamente, então. Não tão rapidamente, mas mais do que antes, com certeza.
     - Bem, já vi que você não vai me agradecer. Toma esta camisa. Vista-a, que iremos sair.


Pablo de Araújo Gomes