sábado, 13 de março de 2010

Capítulo IX – Jogo de Gato e Rato

     Preocupados, Michelle e Emílio sentaram-se à mesa. Adão retomou aquela aparência clássica, imóvel, que sempre tivera para Emílio. Permanecia calado e sério, em pé, inequivocamente concentrado, e certamente fechado em seu universo particular.

     Não poderiam sair antes do cair da noite. Bem, se eram reféns, era certo que alguém planejava qualquer coisa contra eles, e esse alguém planejara tudo em seus mínimos detalhes, segundo lhes pareceu. Por outro lado, sabiam que, se sobrevivessem até a noite, poderiam fugir, e buscar a ajuda direta do Conselho.

     As horas passam, quietas e mórbidas como antigos edifícios abandonados, e a tensão somente aumenta. Tudo permanece inalterado. Emílio ainda sente uma sede insuportável, que não poderia ser saciada por água alguma. E fome, também. Mas não há nada na despensa. No lugar da comida, uma gaiola sem portas, completamente fechada, com um enorme rato, dentro; fora, a seguinte mensagem:

“Caro Emílio,
Sente fome? Ou, seria sede? Delicie-se com esta delicada iguaria, por enquanto. Mais tarde, poderá sair desta casa, e experimentar a Vida que Lionel lhe deu. Você é livre, Emílio, jamais precisará submeter-se à Ordem, se não o quiser! Mas, lembre-se: no jogo de gato e rato, às vezes se é o gato, outras vezes, não…”


     Como assim? Sabiam que ele estaria ali, o que, até certo ponto, não era novidade. Mas sabiam que tinha sede. Mesmo o relatório de Michelle apenas revelara sobre a morte de Adam. Nada havia sido dito a ninguém sobre seu ataque, ou sua sede. E, havia uma dúvida, mais: a que “Ordem” não precisaria se submeter?

     Eva e Adão se entreolharam, por um instante, e compreenderam um ao outro. Mas não concordavam entre si. Eva estava decidida a esclarecer a Emílio sobre a Ordem. Afinal, ele já conhecia o Grande Conselho, de um lado, e a Acção, do outro. Adão achava que ele sabia o que o sabia por permissão do Grande Conselho, e ainda assim sabia demais. Não era seguro que soubesse mais, agora. Mas, ambos compreenderam rapidamente que o intento deste recado era confundir a cabeça de Emílio. E havia funcionado.

     Antes que pudessem reagir, Emílio já havia  rompido a gaiola, e, dominada sua repulsa, havia abocanhado com vontade o enorme roedor.

     - Não, Emílio! Não!
     O rato se debatia, mas Emílio o segurava com as duas mãos. Aplicava-lhe mais força do que o necessário, a ponto de quebrar-lhe alguns de seus pequenos ossos. Com uma voracidade incrível, Emílio logo lhe havia sorvido todo o sangue.
     - Não dá nem para o começo! – queixou-se Emílio.
     - É claro que não, Emílio! Não vê que isto foi feito com o firme propósito de deixá-lo sem controle?

     De fato, ele estava completamente descontrolado. Agitado, ansioso, irritado. Emílio olhava em torno, e não compreendia como ou porque os demais não sentiam, também, a falta que ele sentia de sangue. Talvez, por isso, eles não o compreendessem.

     Percebendo que ele começava a sair de si, prevendo que Emílio surtaria, Adão precipitou-se inutilmente contra ele. Inutilmente, porque, antes que lhe pudesse alcançar, Emílio já havia estourado violentamente em direção a uma grande janela, a poucos metros da despensa.

     Como numa explosão de luz, uma luminosidade insuportável tomou o ambiente, arremessando Emílio para trás. Sim, ele conseguira abrir a pesada janela. O susto que o arremessou para trás fez com que caísse pesadamente, a cabeça contra o chão. Sua visão se apagou imediatamente após o clarão, e os sons em torno dele, cada vez mais distantes, desapareceram.


     - O que houve?
     Emílio acordou atordoado, a visão turva, os braços e a face a lhe doerem imensamente. Doíam-lhe com insuportável intensidade até os ossos.
     - Você teve um surto, Emílio. Abriu a janela.
     Assustado, Emílio levantou-se. Começava a lembrar. Olhou para os braços, e viu, com dificuldade, que estavam tomados de bolhas.
     - Tivemos sorte. – retomou Michelle – A luz que incidiu sobre nós não poderia ser tão intensa. Esta janela é direcionada para o oriente, e já passava consideravelmente do meio-dia, quando você a abriu. Não pude ver com atenção, mas tenho a impressão de que alguém colocou espelhos, ou algum metal, estrategicamente, para que a luz incidisse sobre a janela, e a radiação solar se concentrasse sobre nós. Teríamos morrido, se eu não tivesse conseguido fechar a janela.
     - Eu nos joguei contra a armadilha.
     - Sim, você acionou a ratoeira.

     Claro. A mensagem. Eles eram os ratos. Romper a gaiola não era liberdade, mas entregar-se ao predador. Permanecer na casa, então, era a segurança deles. Michelle parecia concordar com o que ele pensava.
     - Você lê pensamentos?
     - Não, ninguém faz isso.
     - Como parece compreender o que eu penso?
     - O corpo fala. a linguagem corporal, o olhar… Tudo denuncia, sem palavras, muito do que você pensa, sem que você perceba.
     - Mas, não tanto assim.
     - Com o passar de décadas, e os sentidos apurados de vampiro, você vai entender o que lhe digo. Dedique-se um pouco mais, e perceberá.

     Um breve silêncio se fez ouvir. Mas, Emílio percebeu que havia algo de errado.
     - Onde está Adão?
     - Pedi que ele se ausentasse, para que não brigasse com você.
     Só então, Emílio percebeu que Eva também estava bastante queimada, e seus braços também estavam tomados por bolhas.
     - Você também se queimou... E ele, está bem?
     - Ele teve sorte. Ao tentar segurar você, ele caiu no chão, e isso o retirou da incidência direta da radiação. Ele está apenas despelando um pouco, e estará como novo até o fim do dia.

     Emílio começava a lembrar mais detalhadamente da cena.
     - Eu só faço besteira, não é?
     - Não, mon amour, você não tem culpa. É por isso, que o Conselho somente admite a transformação de novatos quando membros os apadrinham. O padrinho é sempre um vampiro que seja experiente o bastante, e somente ele pode transformar o novato em vampiro, pois, assim, será capaz de exercer uma grande influência, ou até controle, sobre o novato, nestes momentos difíceis. Você não tem este outro lado da ponte, mon amour. Ninguém pode ajudá-lo, e ninguém pode culpá-lo.
     - Adão não parece pensar assim.
     - Ele está de cabeça quente. E tem as suas razões, para tal. Mas, não há de ficar sempre assim.

     Mon amour. Ela repetira esta expressão mais duas vezes. Ele enchia o peito de orgulho e felicidade, por saber que ela também o amava. Mas a dor ainda o incomodava muito, para que se permitisse algum ânimo.
     - Por que não nos regeneramos?
     - As queimaduras do sol?
     - Sim.
     - Nós não temos mais sangue. O fluido que temos em seu lugar ajuda a recuperar feridas mais rapidamente, mas não consegue lidar muito bem com queimaduras. Como nosso organismo já quase não suporta a radiação solar, nos queimamos fortemente. Demoraremos alguns dias para nos curarmos.
     - Me desculpe!
     - Pelo que?
     - Em última instância, fui eu quem queimou você...
     - Já disse que não foi culpa sua.

     Michelle começou a cuidar do rosto de Emílio, que também doía. Foi quando ele se deu conta de que também tinha bolhas no rosto. Devia estar parecendo um monstro. Dos males, o menor: ela somente queimara os braços.

     Adão retornou, sério. Na verdade, carrancudo. Sua expressão era ainda mais insondável do que de costume. Emílio tentou iniciar um diálogo, mas aquele olhar furioso de guerreiro nórdico o intimidou. Adão parecia, também, reprovar Michelle, por apoiar Emílio, e por estar de seu lado. Passaram o resto do dia neste clima desagradável, até o anoitecer.


     Quando a escuridão começava a tomar o céu, Eva saiu, na frente. Não havia passagens secretas saindo diretamente da casa, mas havia uma boa rota de fuga do lado de fora. Por isso, saiu com o objetivo de checar a segurança de sua fuga. Chamou os rapazes, e mostrou enormes espelhos côncavos, voltados para as janelas da casa, de modo a garantir altíssima intensidade de luz e radiação solares contra a casa, durante quase todo o dia. Algumas janelas pareciam, até, já estar levemente queimadas, somente resistindo devido à grossa camada de tinta, ou, talvez, à boa qualidade da madeira.

     Quem armara seu cativeiro não estava de brincadeira, pensaram. Não facilitaria a sua fuga. Aliás, fugir, até então, estava parecendo uma tarefa muito fácil. Havia algo de errado. Sim, ela tinha certeza, havia algo de errado. Eva congelou imediatamente. Emílio quase esbarrou nela, e iria perguntar algo sobre a parada brusca, pelo que ela fez um sinal: "quieto!", parecia ela dizer. Adão olhou para Eva, e ambos se abaixaram, puxando imediatamente Emílio para dentro do mato. Suas peles já começavam a esquentar e arder, como estivessem em uma sauna.

     Mesmo após fugirem para o mato, persistia a sensação de ardência em suas peles. Correram para o mais distante possível. Emílio não entendeu nada. Que diabos poderia estar havendo?
     - Deram-se ao trabalho de construir dezenas de refletores de radiação ultra-violeta.
     - Como? - espantou-se Emílio.
     - Uma pessoa comum poderia estar no quintal daquela casa, em trajes de banho, nesta noite, e sairia de lá com o bronze muitíssimo bem definido. Construíram uma grande câmara de bronzeamento artificial, naquele quintal. - Explicou Eva - Felizmente, a distância entre nós e os refletores permitiu que fugíssemos, sem maiores danos às nossas peles.
     - Mas, se não era suficiente para nos fazer realmente mal, por que se deram a tanto trabalho?
     - Talvez, esperassem que não fôssemos perceber. Ou não. Não são tão ingênuos assim...
     - Um aviso, talvez?
     - É, pode ser... Ou esperavam que dispersássemos...
     - Mas, quem pode ter este interesse? E por que?

     Emílio tinha os nervos à flor da pele. Perdeu finalmente o controle, gritando a plenos pulmões:
     - Por que não vem nos pegar? Vamos, apareça! Eu sou divertido?! Apareça! - Eva tentava contê-lo - Não, agora, eles têm que me ouvir. Vamos! Vai ser assim? O gato tem que brincar com a comida, não é? Pois você já brincou, venha me pegar!

     Adão não se deu ao trabalho de esperar que Emílio se calasse. Não era obrigado a se arriscar mais por quem não tinha a mínima consideração por seus esforços de sobrevivência. Saiu em disparada, deixando os dois sozinhos.


     Emílio e Eva aguardaram o melhor momento, e seguiram rumo à saída da mata. Não deveriam aparecer em público, pois chamariam muita atenção para si. Este raciocínio fez Emílio ter uma epifania. Suas queimaduras eram uma marca, uma identificação. Eles eram seguidos por alguém, passo a passo, ele tinha certeza disso. Mas, por que ninguém fazia nada?

     Repentinamente, sem que eles esperassem, Gabriel lhes apareceu, como se caído do céu. Entregou-lhes uma grande quantia em dinheiro, e um endereço, que dizia ser seu próximo abrigo, e de onde teriam contato direto com o Grande Conselho. Disse-lhes também que Adão já estaria lá, e seria levado de volta a Oslo, onde tiraria férias. Eles deveriam ser enviados para a França, para que Eva tivesse sua audiência com o Grande Líder. Pegaram o dinheiro, mas sua confiança não foi suficiente para que seguissem ao endereço indicado.

     Eva levou Emílio a uma casa muito simples, onde havia um senhor bastante distinto. Entraram.
     - Hallo, Her Stern!
     - Salut, madame! - sorriu - Pode falar em português, senhorita. Não vai querer que o jovem pense que escondemos algo dele.

     Como ele sabia que Emílio era brasileiro?

     - Então, Stern, serei direta com o senhor. Preciso de passaportes urgentemente.
     - Para quando?
     - Sairemos do Brasil no próximo vôo noturno que conseguirmos.
     - E têm onde ficar, até lá?
     - O senhor tem alguma indicação segura?
     - Podem ficar aqui, até a próxima noite. Depois, sei que não precisarão mais de mim.

     O olhar daquele simpático senhor despertava bastante confiança em Emílio. Michelle cochichou que seu nome era Katze, e significava "gato", em alemão. Emílio riu da ironia, mas não pôde evitar um arrepio na espinha. Já estava prestes a amanhecer, quando se estabeleceram no único quarto da pequena casa, e o Sr. Katze saía para seguir sua rotina diária.

Pablo de Araújo Gomes