sábado, 6 de março de 2010

Capítulo VIII - Um Bilhete Misterioso

     O silêncio no abrigo era consternador. Adão, sempre tão impassível, habituado a aparentar indiferença a tudo, já não parecia tão diferente de qualquer mortal. E não era capaz de conter o espanto, talvez até reverência, quando dirigia o olhar a Emílio. Michelle, embora mantivesse uma postura séria e respeitosa diante de Adão, mais parecia uma adolescente apaixonada, a cochichar segredos nos ouvidos de Emílio. Este, por sua vez, parecia ter consumido qualquer substância estimulante. Estava elétrico, impaciente, tinha uma energia sobrehumana a lhe rasgar o corpo. E sentia muita sede, uma sede que jamais sonhara sentir com tamanha intensidade. Uma fatal sede de sangue.

     Michelle continuava a tentar acalmá-lo, mas seu controle sobre o jovem rapaz não era pleno. Adão assistia a tudo atônito. Assim se passou todo o dia, até que chegasse a noite.

     Quando o sol se punha, saíram em disparada, pela noite. Não arriscariam adentrar na cidade, ou qualquer aglomeração urbana. Seria estupidez. Sabiam que eram esperados em qualquer das pequenas cidades vizinhas, inclusive nas poucas e minúsculas vilas rurais dos arredores. Todos os caçadores haviam sido alocados para aquela região. Evitaram, então, qualquer trilha ou estrada, que já não eram muitas naquela região, e seguiram caminhando a passos extremamente rápidos. O caminho era silencioso, e nada mais acontecia. O silêncio só era quebrado pelo ruído de seus passos acelerados, e pelo próprio som da noite.

     Andando por horas, em silêncio, tiveram a sensação de eternidade. A cada segundo, a tensão aumentava, juntamente com o medo de serem descobertos. Em cada cabeça, pululavam dúvidas. Em cada mente, mil e uma informações desencontradas. Somente Eva parecia compreender algo do que lhes ocorria, mas seu ar atento e solene afugentava qualquer impulso de questionamento. A sensação de eternidade, no entanto, não passava de uma ilusão. Não demorou para perceberem que o sol queria raiar.

     - Já vai amanhecer? Que horas... que dia é hoje? - perguntou Emílio, atordoado.

     Adão parecia se divertir com a confusão de Emílio. Pelo menos, permitiu-se um sorriso de canto de boca. Eva não estava tão à vontade, pois ainda não encontrara o esperado abrigo. A instrução de seu superior havia sido a de seguir rumo ao leste, ininterruptamente, em ritmo bastante acelerado. Ela havia cumprido à risca, mas nada lhe aparecia. Quando já amaldiçoava a sorte, deparou-se com uma pequena pousada.

     Na recepção, perguntaram onde estavam, exatamente. Sequer compreenderam o nome da região. Jamais haviam ouvido falar em nada semelhante. Mas, nada lhes pareceu extraordinário, pelo menos até consultarem o mapa extendido na parede da recepção. Não poderiam acreditar no que viam. Sua caminhada frenética os levara a avançar quase 150 quilômetros. Feitas as contas, significa que sua velocidade média ultrapassara, tranqüilamente, os 13 km/h, em uma caminhada ininterrupta por terrenos acidentados, cheios de declives e obstáculos. Mesmo muitos atletas de ponta não atingiriam esta velocidade, em tal percurso, ou não chegariam ao fim nestas condições. Haviam caminhado por mais de onze horas, aproveitando o período em que o sol se ausentara da abóbada celeste. Nem mesmo Eva, com mais de mil anos de vida, havia realizado tal esforço. Suspensa a atividade física, sentiam o metabolismo declinar, e começavam a perceber o insuportável peso de suas pernas. Eram puro cansaço. A melhor notícia, no entanto, é que haviam ultrapassado consideravelmente o perímetro de risco, sem sequer desconfiar. Possivelmente, este era o plano de seus superiores.

     Ao pedirem os quartos, descobriram que já estava tudo arranjado. Havia dois quartos simples de solteiros reservados. Os únicos quartos de solteiro da minúscula pousada. Também os aguardava um senhor de nome Gabriel, na melhor suíte da pousada, e que queria vê-los logo que se acomodassem.

     Eva não perdeu tempo, e foi direto para o quarto. Gabriel era um mensageiro, um mercenário contratado para ser o contato deles com o conselho. Ela reportou o sucesso da missão, e a "inevitável neutralização" de Adam Bowie durante a fuga. Quis ocultar, pelo menos por enquanto, a sobrevivência de Emílio, mas a presença física dele seria um claro empecilho. Solicitou, no entanto, uma audiência direta e pessoal com o grande líder, para revelar em detalhes confidenciais o que havia acontecido. A sobrevida de Emílio levantou dúvidas quanto ao sucesso da missão, mas a Srta. Michelle Delacroix tinha um bom crédito: em séculos de atividade como agente, Eva jamais falhara.

     Os seguintes procedimentos foram traçados. A comunidade possuía meios para executar planos ousados, cuja execução aconteceria sob o comando de Gabriel. Alguém não vampirizado, fazendo-se de turista, ficaria encarregado de induzir algum cidadão local a entrar na mata, e encontrar os restos mortais do presidente da Acção. Àquela altura, certamente, já haviam sido dilacerados por uma onça, ou qualquer dos predadores comuns naquela região. Os espiões infiltrados na Acção deveriam acompanhar, dentro desta organização, quais os efeitos e as reações da morte de seu líder. E, muito importante, um veículo já estaria a caminho para tirar os três vampiros dali em segurança.

     Gabriel, embora pouco entusiasmado, cedeu a suíte para o casal. Adão já caíra no sono, e os demais não demoraram a fazê-lo, exaustos que estavam.


     Começava a anoitecer, quando todos acordaram. Gabriel havia desaparecido sem deixar qualquer rastro, além das diárias pagas. E o transporte prometido os aguardava do lado de fora. Era um carro estranho, de modelo desconhecido. O estranho veículo tinha tração nas quatro enormes rodas que possuía, e firmeza digna de um tanque de guerra, mas era muito pequeno, chegando a ser apertado para os três. Também possuía a cabine de motorista isolada, e janelas absolutamente negras, para garantir a proteção dos vampiros contra a luz solar, como eram todos os carros do Conselho.

     Durante a viagem de volta, tornou-se claro o porque de usarem um carro tão peculiar. Havia de ser um carro personalizado, feito especificamente para andar por entre as estreitas trilhas, naquelas terras ermas e alagadiças. Chegaram a atravessar alguns riachos mais rasos, em meio ao terreno extremamente acidentado. Mesmo à noite, o calor era insuportável, mas Emílio não pôde deixar de perceber, com satisfação, que não gerava interesse nos incômodos mosquitos, que pareciam vir de toda a parte.

     Emílio também pôde notar que era capaz de ouvir qualquer movimentação no meio da mata, no meio da noite. Foi capaz de, sem muito esforço, identificar a distância dos sons que fazia a noite, e identificar formas e tamanho dos animais noturnos em um raio de algumas dezenas de metros.

     - Nunca imaginei que a floresta fosse tão viva, à noite.
     - Você teve esta oportunidade, ontem.
     - Ontem, eu só conseguia ouvir bem os meus próprios pensamentos. - respondeu, distante, Emílio.

     Antes, ainda, que amanhecesse, chegaram a uma cidade de porte um pouco maior, onde migraram para um outro carro, mais confortável e espaçoso, e de onde seguiram por rodovias. As rodovias estavam em péssimas condições, mas o balanço do carro não chegava a ser tão intenso quanto no meio da floresta. Não mais suportando o mistério, Adão se dirigiu a Eva.

     - O que houve, exatamente, para que Emílio pudesse sobreviver?
     - Eu tenho uma teoria. Jamais obtive autorização do conselho, para testá-la, e continuo não tendo tal autorização. - segundos de silêncio - Mas as circunstâncias me fizeram ignorar o conselho. A nossa saliva... A substância que nos ajuda a sugar o sangue, por ser anticoagulante, parece ter outras propriedades ainda desconhecidas. Parece-me que, quando removemos a alma, o corpo precisa se apegar a algo, para sobreviver. Talvez, ao introduzirmos algo de nós em quem mordemos, criemos uma ponte entre nós e este alguém. Se sobrar algum sangue, e o humano vitimado sobreviver ao ataque, logo será transformado em vampiro.
     - É isso que explica a dependência? - Emílio indaga, curioso.
     - Segundo a minha teoria, sim. Enquanto houver esta ponte, e as duas extremidades por ela ligadas, o novo vampiro poderá sobreviver.
     - E, assim, deixamos de se humanos...
     - Jamais deixamos de ser humanos, Emílio. Nosso organismo sofre algumas modificações, nosso metabolismo é alterado, mas, em essência, continuamos humanos. Temos sentimentos, desejos, habilidades e uma infinidade de instintos, mais afiados do que nunca. Nunca, antes, fomos tão homo sapiens, em nossas vidas.
     - Vendo por este ponto de vista, faz bastante sentido. E por que não passa esta vontade insuportável de beber sangue?

     Adão chegou a dar um pequeno sorriso. Antes que Emílio pudesse percebê-lo, no entanto, Michelle o censurou. Sabia que ele se divertia com esta dificuldade de Emílio, como quem vê um amigo ficar completamente bêbado pela primeira vez. Não era correto divertir-se com isto.

     - Vamos colocar da seguinte maneira - disse o próprio Adão, contendo o riso - Até experimentar o sexo, você tem bastante curiosidade. Depois que prova como é bom, não lhe sai da cabeça o desejo de reviver a sensação, e torna-se praticamente insuportável a idéia de ficar sem. Agora, multiplique por mil, e entenderá o que está sentindo...

     Michelle riu-se por dentro, pela explicação. Era uma brincadeira comum, entre vampiros homens, fazer esta comparação para explicar a novatos, mas isto não fazia da comparação algo menos ridículo. De qualquer forma, funcionava. Emílio pareceu compreender imediatamente o que queria dizer.

     Como desse um laço, Michelle envolveu Emílio em um abraço apertado, fazendo-o aninhar-se em seu colo. Tentou induzir seu sono, mas não conseguiu. Emílio não era tão controlável como se poderia esperar. Pensou na ponte. Talvez, fosse mais como uma corda, que impede a queda no precipício, e todo o processo que lhe garantira a vida tenha possibilitado que ele tivesse alguma independência. Talvez, a corda que o ligara a Lionel ainda o ligasse a algo, ou o sangue que bebera o estivesse ajudando a agarrar-se a alguma pedra. O fato é que ela, Michelle, lhe garantira a sobrevivência, mas a influência que ela lhe exercia era muito limitada.


     Passavam-se horas, em que conversavam trivialidades, ou, pior, não falavam nada. Era comum o sono apertar, mas ninguém aguentava mais dormir. Alguns lanches frios já os aguardavam no carro e não demoraram muito a ser consumidos. Então, logo que voltou a anoitecer, fizeram uma pausa para o lanche.

     Na pequena lanchonete, Emílio chamou a atenção da bela e jovem garçonete.
     - O que ela tanto olha em você, Emílio?
     - Talvez, ela me ache bonito, não sei...

     Na verdade, sem saber, Emílio a seduzia. Ao notar, Michelle indignou-se.

     - Emílio, você não vai mordê-la! - cochichou em seu ouvido.

     Emílio não era capaz de acreditar. Que incrível capacidade de percepção, a de Michelle, ao perceber um pensamento seu, que ele mesmo, até então, não havia notado. Ele sentia dentro de si que já havia arquitetado um plano, e não se sentia capaz de se conter. Precisava realizá-lo. Precisava beber um pouco, saciar-se. Não suportava, realmente, a idéia de não beber o sangue daquela jovem tão atraente.

     Já Michelle, atenta, tinha outras preocupações. A primeira: Emílio precisaria se conter, se desejasse ser acolhido, em vez de definitivamente degredado da comunidade. A segunda preocupação deveria ser menos grave, mas não a incomodava menos. Por que, de tantas vítimas possíveis, que passavam para um lado e outro, ele havia escolhido justo uma garota? E por que uma garota tão bela? Michelle teve que conter uma fúria enorme dentro de si, para não fazer uma cena de ciúmes. Ela não sentia nada semelhante havia mais de mil anos, quando uma cortesã se insinuou para o seu noivo, às vésperas do casamento. Notar o que sentia também não ajudou muito. Ela respirava fundo, com o intuito de relaxar, mas sentia o cheiro de fertilidade da jovem invadir suas narinas. Aquilo, talvez, estivesse sendo sentido por Emílio, também. Como agir de forma sutil?

     E a jovem seguia com sorrisos e atenções para Emílio, quase ignorando os demais da mesa. Limitava-se a receber seus pedidos, e trazê-los com prestreza. Mas falava com eles, e a eles se dirigia, sem tirar os olhos de Emílio, que parecia corresponder cada olhar.

     Sob a acirrada vigilância de Michelle, no entanto, Emílio não pôde pôr seu plano em curso. Sem quase comer nada, ambos optaram por pedir que a comida fosse embalada para viagem. Sensível ao clima que tomava o ambiente, Adão também fez o mesmo, apesar da fome. O alívio foi grande, quando entraram no carro. Ou não. Michelle percebeu que não iria poder descuidar de Emílio, por um bom tempo. E Emílio não conseguia parar de pensar na chance que perdera de saborear um pouco de sangue. Por muito tempo, ainda, seguraram, imóveis, seus grandes sanduíches, e suas caixas de suco.

     Após alguns dias de longa jornada, finalmente, estavam em São Paulo. Não no centro, não na cidade, mas em uma área bastante verde, nos entornos da região metropolitana. O carro entrou em uma garagem semelhante à da sede do conselho, mas menor. Michelle explicou a Emílio que aquela era uma das casas que já usara em missões, décadas atrás. Lá, recobrariam as energias nos próximos dias.

     Subiram as escadarias, e já estavam dentro de uma casa simples, mas bastante aconchegante. Sobre a mesa, um envelope, em que se lia: "à Srta. Michelle Delacroix". Ela o abriu, e encontrou um bilhete datado daquele mesmo dia, em que se lia um poema.

     Ela ficou desconcertada. A primeira sensação foi da mulher lisongeada, a segunda foi a da mulher invadida. Finalmente, ela se deu conta de que poucos sabiam que ela estaria lá, e estes poucos eram os membros da cúpula do Grande Conselho. Nenhum deles jamais lhe enviaria um bilhete anônimo. Emílio, ao ler, quedou-se incapaz de se conter, tamanhos eram seus ciúmes. Adão gargalhou pela primeira vez em anos, com sua potente voz, o que lhes deu a impressão de que trovejava no céu. Mas a situação era séria. Havia anos que ela não entrava ali. O bilhete era anônimo. Quem mais saberia que eles estavam ali? Esta preocupação logo assumiu caráter de urgência. Eram nove horas da manhã, os telefones não davam linha, o computador não funcionava. O carro não mais se encontrava na garagem. Estavam presos e incomunicáveis. O que lhes aguardava?


Pablo de Araújo Gomes