sábado, 27 de fevereiro de 2010

Capítulo VII - Morte Anunciada

  A casa foi evacuada. O silêncio era de morte, e aquele edifício tão nobre, mas completamente desocupado começava a parecer uma enorme cripta, de tão fúnebre. A grande ironia ficava por conta do som ambiente. Enquanto eles se preparavam para a morte, o ar era tomado pelo Requiém em Ré menor, inadvertidamente composto por Mozart para o próprio funeral. Ao olhar para Eva, Emílio teve certeza de que queria viver. Queria estar com ela. Nunca, antes, ele desejara qualquer coisa com tamanha intensidade.

  Eva, percebendo isto, pareceu compadecer-se pelo sofrimento do rapaz. Mas nada disse. Enquanto a Srta. Delacroix era Eva, era uma oficial a serviço. Não lhe cabia qualquer fraqueza humana. No comando da operação, ela dispensou Adão de vigiar Emílio. Encarregou-lhe, no entanto, de manter plena vigilância sobre o Sr. Lionel Giardini, que, pensativo, não parava de confabular algum meio de escapar.

  A Lionel, pouco lhe importava se poderia provocar uma guerra. Ele morreria de uma forma ou de outra. Além do que, sua morte não seria mais certeza de evitar a guerra. Não se arrependia de nada que fizera. Vivera muito, e muito bem. Mas, começava a considerar que, talvez, pudesse viver mais se houvesse tido um pouco mais de cautela. Prudência, dinheiro no bolso e canja de galinha jamais fizeram mal a alguém. E ele ignorara os três, pelos últimos duzentos e cinquenta anos, desde que se rebelara contra seu mestre. Nesta época, foi um dos que agitou a sociedade européia, e realizou ataques em todos os círculos sociais. Chegou a quase ser pego, muitas vezes, quando atacava quem bem entendesse, sem cuidado algum, e sorvia não apenas o sangue, mas também os fluidos do amor e da luxúria.

  Ouviu-se algum ruído vindo de fora da casa. Era uma tarde nublada, mas sair da casa, ainda assim, era muito arriscado. O Brasil não é país para um vampiro. Pelo menos, grande parte do Brasil, onde o clima tropical e equatorial garantem altíssima incidência da peçonhenta luz solar. A maioria dos poucos que para cá vêm tem algum objetivo profissional ou alguma missão diante do Grande Conselho. Ou, mais comum, está fugindo. Ao ouvir o ruído, Eva recomendou que Adão se ocultasse, mas manteve a ordem de vigilância sobre o Sr. Giardini. Sem aceitar questionamentos, ela chamou Emílio para subir as escadarias.


  Subiram, então. Emílio estava desconfiado. Algo havia de errado. Adão parecia muito resignado, como se tivesse certeza da morte iminente. Lionel, não parecia nem um pouco entregue à situação, mas aparentava estar amarrado a Adão, incapaz de se movimentar.

  Lá em cima, a Srta. Michelle Delacroix despiu-se de Eva. E, logo depois, Michelle despiu-se, também, do Srta. Delacroix. Restou-lhe, apenas, a mulher, quase nada da vampira. Com um olhar cúmplice, ela o atraiu para um quarto.

  - Eu estou prestes a morrer, e você tenta me levar à Suite Presidencial? Não acha que justo agora eu vou ter cabeça para...
  - Relaxe, confie em mim...

  Ela o puxou pelas vestes, e começou a despi-lo. Ele, até então seguro de que não seria capaz de se animar para nada, olhou-a nos olhos, estupefato. Foi mais do que o suficiente. Em segundos, estava pronto. Fizeram amor, como se fosse a última vez. Ora, seria, mesmo, a última vez!

  Sobre a cama, Michelle mostrou-se em toda a sua esplendorosa beleza, lasciva, envolvente. Braços e pernas se confundiam no magnífico ballet de suas carnes. Emílio deixava-se dominar por aquela fêmea poderosa que o subjugara, enquanto suas próprias veias saltavam como fossem explodir. Quando as sensações atingiam o grau máximo, e ao júbilo infindável se assomava o momento do orgasmo, ela cravou-lhe os dentes na jugular. Por um par de segundos, ele sentiu uma dor lancinante torturá-lo. Não, ela não lhe cravara os caninos saltados, como pareceria óbvio esperar. Ela fincou-lhe os dentes incisivos uma força descomunal, e arrancou-lhe um bom pedaço do pescoço. Se houvesse sangue, lhe jorraria aos montes, com certeza.

  Mas, muito rapidamente, a dor passou. Algo que Michelle fizera provocou uma dormência agradável, que se difundiu dali para todo seu corpo. Emílio não entendeu, imediatamente, o que lhe ocorria. Sentiu, mesmo, um sono devastador. Mas, antes que ele se pudesse entregar à sonolência, ela o chamou.

  - Não durma, ainda, mon amour. Você precisa viver!

  Ouviu-se um forte estampido vir lá de fora. Mas ele mal parecia ouvir. Estava entorpecido por alguma substância que ela parecia ter-lhe inoculado, e mais ainda pelo poder daquelas palavras. Ela o amava, então?

  Adão chegou ao quarto apressadamente, como quem subira as escadas em um só passo. Emílio jamais vira tal expressão de pânico em sua face. Na verdade, Emílio jamais vira qualquer expressão naquela face, e justo o pânico não era bom augúrio. Ele já chegou falando, antes mesmo de poder ver o que se passava.

  - Lionel está entregue, Eva! Vamos!

  Só então, Adão viu que estavam completamente despidos. Não entendeu nada. Eva apertava fortemente Emílio, quase adormecido, entre seus braços. Adão tentou apressá-los. Era momento de correr, pois seus algozes subiriam rapidamente, vasculhariam toda a casa, e não deixariam passar nada.

  Emílio não encontrava forças para se levantar. Michelle sentia isto, e parecia sofrer, pois não queria perdê-lo. Ela levantou-se, enrolou o rapaz com um cobertor, e saíram, juntos, por uma passagem secreta que levava a uma outra saída subterrânea que ninguém mais conhecia. Era uma rota de fuga difícil de ser descoberta e quase impenetrável, destinada originariamente a proteger o Grande Líder. O segredo desta passagem houvera sido revelado para a fuga de Adão e Eva, após o cumprimento desta missão.

  Mas não era possível se arriscar. A passagem subterrânea era estreita, e Eva carregava Emílio com muita dificuldade. Ao sair, encontraram-se em uma caverna, cercada por uma densa mata. Este pedaço tão encorpado da floresta, praticamente intranspassável, pertencia à propriedade, e fazia parte da rota de fuga. Os raios solares não chegavam aos planos mais baixos. Mas não era possível carregar ninguém por lá. Era preciso muito jogo de cintura para passar por entre os galhos e raízes.

  Não podendo mais seguir, Michelle sentou-se em uma pedra, acolhendo Emílio em seu colo. O corpo desfalecido, tão amorosamente amparado, e a expressão de sofrimento de Michelle, tudo remetia à imagem de la pietà*. Adão hesitou um instante, pensando em esperá-la. Mas percebeu que ela não viria. Emílio agonizava. Sua jugular e os órgãos em derredor cessavam, lentamente, o processo regenerativo. Ele parecia estar nos últimos instantes. Àquela altura, Lionel certamente já havia sido morto. Adão, é bem provável, já se aproximava do esconderijo definitivo, de onde somente partiriam à noite. Mas ela estava ali. A musculatura de Emílio começava a perder totalmente o tônus, como se ele se entregasse. Seu olhar, até então fixo na mulher que tanto amava, começava a se perder no espaço. Logo, seus olhos não foram mais capazes de se manter abertos. Michelle chorava copiosamente, pedindo que ele não partisse, que resistisse um pouco mais. Emílio revirava os olhos, umedecidos pelas lágrimas de Michelle.

  Tudo estava perdido. Todo o seu esforço havia sido em vão. Ela, decididamente, não nascera para o amor. Em toda a sua vida, amara apenas um homem, com quem se casara, antes mesmo de se tornar vampira. Ele era um nobre, que a amou genuinamente. Mas ela era uma serva, e esta união incomodou muita gente. Eles teriam que ser retaliados. E foram. Ainda na noite de sua lua-de-mel, antes que pudesse ser consumado o casamento, ele morreu em seus braços. Ela se perguntava o por que de tudo isso. Em toda sua existência como vampira, recusou-se a se entregar à paixão, ao amor. Jamais se permitira, jamais sentira, sequer, falta disso. Mas, agora, amava novamente, de maneira irremediável, e não podia fugir disso. E ele estava condenado à morte. Morria, agora, em seus braços.

  Michelle Delacroix via passar um filme, em sua mente. Lembrava de como herdara seu belo sobrenome de seu marido, um nobre de família cristã, na época em que este credo começava a se alastrar. No dia do casamento, quando iniciava a festividade, o casal estava prestes a sair à francesa, para desfrutar dos prazeres das núpcias. Foi quando chegaram os poderosos senhores daquelas terras, acompanhados de sua guarda, para levar Michelle. Alegavam ser ela uma serva,e exigiam o droit de cuissage**. Armand Delacroix estava sujeito, com isso, à vergonha pública, pois um nobre não era obrigado a experimentar tal humilhação. Mas não era isso que lhe incomodava. Recusou-se a sujeitar sua tão amada esposa a tal degradação. Empunhou sua arma, e, junto a toda comunidade, resistiu. Poucos sobreviveram, poupados apenas para recontarem a história. Todos precisavam saber o que acontecia a quem mancha o nome nobre de sua família ao desposar alguém inferior. Em seus braços. Ele morrera em seus braços. Esta imagem não lhe saía da cabeça. E seu novo amor morria, novamente, em seus braços, também vítima da intransigência de outrem. Doía-lhe no peito a certeza de que jamais poderia amar, sem por isso ter de suportar o peso de ver morrer o seu amado.


  Michelle sofria, calada, olhos fehados, as lágrimas lhe escorrendo abundantemente do rosto, por seu destino tão cruel. Um repentino e violento espasmo a trouxe de volta à realidade. Emílio começava a reagir. Tremia de frio, dentro das cobertas ensopadas pelas lágrimas de Michelle. Seu pescoço já estava quase que completamente regenerado. O choro de Michelle, agora de emoção, foi redobrado. Ela o salvara! Funcionara! Ele acordava fraco e atordoado, sem compreender o que se passava em derredor.

  Um ruído já esperado por Michelle se fez ouvir. Queria dizer que funcionara um outro plano que ela articulara em segredo: Adam, o líder da Acção, os seguia. Despontaria na passagem secreta muito em breve, o covarde, e certamente não contava com a presença deles. Ele sempre foi muito impulsivo, o que fazia dele um péssimo caçador de vampiros. Aquele texano conservador, racista, branco da face rosada somente chegara ao poder dentro da Acção através de muita corrupção, e se auto-denominava o maior inimigo dos vampiros de toda a história. Ele se aproximava cada vez mais, e Michelle olhou Emílio nos olhos, como quem dá uma ordem firme. Ainda atordoado, quase inconsciente, Emílio avançou sobre Adam, antes mesmo que pudesse vê-lo. Nem bem era capaz de perceber o que fazia, já havia arrancado um naco de carne do pescoço de Adam, deixando à mostra a carótida direita. Ele parecia saber como agir, mas estava fraco demais para compreender o que fazia. Concentrava toda sua energia em agir, não em pensar, enquanto Adam ainda começava a tomar consciência do que lhe ocorria. Michelle, por sua vez, dava cada instrução, com um olhar firme, quase agressivo. Adam tentava reagir, mas havia sido pego de surpresa, e deixara cair no chão tudo o que poderia usar para se defender. E não era páreo para a força de um vampiro. Jamais seria. Emílio rasgou com capricho a exposta artéria pulsante de Adam, e provou de seu sangue. O sabor não tinha nada de extraordinário, mas a sensação de prová-lo era indescritível, única. Michelle o orientou a deixar a saliva se misturar ao sangue, ainda dentro da artéria de Adam. Ao fazê-lo, sentiu, misturada à sua saliva, alguma substância refrescante. Era uma substância anticoagulante, com potentes propriedades analgésicas, que ele introduzia no corpo de Adam, eliminando sua resistência.

  Dos ouvidos de Adam, e de sua gengiva, começaram a escorrer finos fios de sangue. Seus olhos, até então saltados, também vertiam o líquido encarnado, como se ele chorasse sangue. Neste momento, Emílio percebeu o que fazia com aquele homem, para ele, desconhecido. Quedou-se horrorizado com o mal que provocava a alguém cuja existência, simplesmente, ignorava até aquele momento. Quis parar, mas não conseguia. O sangue daquele homem lhe parecia corroer a consciência, ou seu auto-controle, mas ele se sentia fisicamente fortalecido, como jamais se sentira. Era inebriante, perturbador, até, a sensação de urgência que começava a sentir por sorver cada mínima gota. Com muito esforço, conseguiu parar.

  - Beba até o fim, Emílio!
  - Não posso!
  - Beba, logo! Vá!
  - Mas, isso vai matá-lo!
  - Ele veio atrás de nós, para nos matar, Emílio. Vamos! - Emílio resistia - Se não matá-lo, ele se transformará em um vampiro muito perigoso, e vai nos perseguir até acabar com todos nós! E será um vampiro ligado às suas energias vitais! Vamos, Emílio, logo! Se você deixá-lo ligar-se a você, em breve não terá mais força para sobreviver, você está fraco demais! Mate-o! - Emílio sugava, ainda hesitante - Isso! Beba o sangue, isso vai fortalecê-lo para podermos fugir.

  Mas, no último instante, Emílio fraquejou. Não teve coragem de matar aquele homem. Eva - neste momento, não era Michelle quem agia - desferiu um golpe rápido contra aquele corpo que jazia, arrancando-lhe a cabeça. Lançou os restos mortais para o meio do mato, onde sabia que algum animal selvagem faria dele sua refeição. Emílio, embriagado por tantas sensações, acompanhou com o olhar surpreso cada movimento daquela mulher impressionante.

  - Vamos, agora você está fortalecido. Acho que consegue vir!

  E ela desapareceu no meio da densa mata. Ele correu atrás, seguindo o próprio olfato, reconhecendo a fragrância natural que jamais confundiria em sua vida. Logo, não era possível a qualquer ser vivente encontrá-los.

  Adão aguardava a chegada de Eva, mas não contava com a aparição de Emílio. Completamente perplexo, espremeu-se mais para o canto, e os recebeu dentro do estreito abrigo.


Pablo de Araújo Gomes




Breve glossário:

* "La Pietà", em português, "A piedade". Representação comum em artes visuais, na Idade Média, Jesus morto nos braços da Virgem Maria. A versão a que se refere o texto, precisamente, é também a mais célebre de todas: a escultura perfeitamente acabada por Michelangelo, aos 23 anos de idade, no período do Renascimento, e que hoje agiganta a Basílica de São Pedro, no Vaticano, onde repousa.

** "droit de cuissage" (na França), ou "primae nocte" (na Europa em geral). Considerava-se que todos os servos pertenciam ao seu senhor. Decorrente desta concepção, apoiada, inclusive, no posicionamento da igreja católica, surgiu um hábito medieval, segundo o qual, na primeira noite após o casamento (a lua de mel), a noiva pertencia ao Senhor Feudal, que a defloraria, ele mesmo. Em algumas regiões, chegaram a ser promovidas verdadeiras orgias, envolvendo muitos nobres, que devolviam, apenas, uma mulher traumatizada, retraída, usada e humilhada, por vezes à beira da morte. Muitas mulheres casavam-se de preto, em protesto, e muitos casamentos eram realizados em segredo. Mas os próprios clérigos, aliados da nobreza, muitas vezes deduravam estes casais, que eram severamente punidos.