sábado, 20 de fevereiro de 2010

Capítulo VI - Aguardando Visitas

     - EVAAAAAAAAA!!!

     Assim, com um grito, como alguém que acorda de um pesadelo terrível, Emílio despertou. Tinha, à sua volta, Lionel, que lhe fazia uma compressa de água fria, e Adão, que não tirava os olhos de Lionel.

     - Nunca vi um vampiro ter febre. - Emílio tentava se recompor. Olhava, assustado, para Lionel, que seguiu falando com uma calma ironia, quase insuportável. - Aliás, meu caro, a sua temperatura corporal teria sido uma sentença de morte para qualquer um. Nunca ouvi falar em nada parecido.

     Adão pareceu assentir, observando tudo quase curiosamente, mas sempre inexpressivo. Lionel continuou.

     - Hummm... a julgar pela camisa rasgada, e pela sua temperatura, parece que as coisas foram bem quentes, por aqui... Ah! Perguntou pela sua nova "madrinha"? Ela já partiu, antes que qualquer um pudesse esperar. Ninguém a vê, desde ontem. Ou será que ela apareceu para alguém?

     Por trás da pergunta, escondia-se um certo escárnio, fosse por pura ironia, fosse por sentir inveja de algo, ainda que lhe parecesse improvável que ela houvesse aparecido. Vendo Emílio calado, desconcertado, Lionel arriscou, ainda, uma nova pergunta.

     - O que você queria com ela?
     - Nada, não!
     - Você mente muito mal, rapaz. Pode me dizer!

     Emílio sentiu uma vontade irresistível de revelar tudo. Aquele olhar de Lionel, ou talvez o seu toque paternal, ou qualquer coisa nele fazia com que Emílio se sentisse completamente entregue ao controle de seu novo amigo. Devia ser a influência de que alguém havia falado. Não conseguiria mentir, de forma alguma. Mas, algo lhe surpreendeu: ao pensar em Eva, conseguiu calar-se.

     Lionel olhou com mais intensidade, já intrigado. Seu olhar e seu toque deveriam exercer um poder quase hipnótico sobre Emílio. Por que não acontecia nada? Algo estava fora do normal, certamente haveria qualquer coisa fora da ordem. Com o olhar, Lionel parecia entrar nos olhos de Emílio, como a perscrutar qualquer pensamento. Mas, nada lhe ocorria. Não conseguia ler seus pensamentos, nem ouvi-los.

     - O que está fazendo?
     - Procurando o que há de errado.
     - Como assim? Algo deveria estar errado?
     - Esqueça!

     A resposta foi fria, quase ressentida. Lionel sabia que deveria ter poder quase ilimitado sobre a mente de Emílio. É o que acontece quando se transforma alguém. Lionel não apenas se recusava a aceitar aquilo, como jamais poderia revelá-lo. Era algo sem precedentes perder o poder de influenciar seu pupilo com menos de uma semana. Esta capacidade costumava perdurar por muito tempo, mesmo depois que a vida do recém transformado alcance a independência. E apenas muito lentamente se diluía.

     Este pensamento provocou-lhe um profundo arrepio na espinha, como não sentia havia décadas. Se o jovem rapaz alcançasse a independência, logo ele mesmo perderia qualquer proteção. Mais do que isso, ele teria criado um monstro. Ninguém alcançava tamanha independência em tão pouco tempo! De que seria capaz? Não era algo aceitável, provavelmente seriam ambos mortos o quanto antes.

     Emílio interrompeu seu raciocínio.

     - Quando você vive, a morte não existe. Quando a morte existe, você não.
     - O que?
     - Demócrito dizia isso, não é? Ele acreditava que nossa alma se dispersa em átomos para formar outras almas. Acontece com o nosso corpo, disso já sabemos. Bem, a nossa alma não se dispersa, mas, agora isso já não interessa, porque não a tenho mais.
     - Aonde você quer chegar com isso, garoto?
     - Lugar nenhum. Lembrei-me do dia em que você me transformou. Você disse que tudo ia acabar, mas só para mim. Mas, não vai haver um "eu" para sentir falta da vida. Se eu sou apenas um conjunto instável de átomos, então, qual o problema que eles se dispersem? Morrer já não me parece tão mau...
     - Você está depressivo, garoto? - perguntou Lionel, enquanto examinava o seu paciente.
     - Não, eu quero viver. Só não vejo mais problema em morrer. Não temo a morte. Não vou conhecer a morte.
     - Você já não tem mais febre. - e continuou, após certo silêncio - Então, você não vê mais problema em morrer?
     - Não. Algo em mim me diz para sobreviver, para lutar pela vida...
     - Seu instinto de sobrevivência, claro.
     - Que seja! E eu acho que irei obedecer a esta ordem. Mas, se a morte vier, que venha!
     - Não chama, que ela vem! Ela já está nos procurando, lembra?

     Ambos riram às gargalhadas, cúmplices, sem entender exatamente qual era a graça. Sabiam do que estavam falando, e se entenderam, ao se entreolhar, após todo o riso. Deveriam lutar por suas vidas. Lionel convidou Emílio a saborear algum vinho na Sala de Estar, enquanto aguardavam a chegada dos dirigentes da Acção, mas Emílio não demonstrou muito interesse. Um tanto inseguro, Lionel tentou induzi-lo a aceitar a proposta, e funcionou de imediato. Que alívio! Talvez, tudo não tivesse passado de um mal entendido.


     Enquanto Emílio se banhava, Lionel escolheu para ele um elegante smoking. Em cada quarto havia um guarda-roupas com roupas sob medida para o hóspede do quarto. Quase todas, dignas de serem usadas em uma cerimônia do Oscar, em Hollywood.

     Lionel foi para o seu quarto, banhou-se e se vestiu com uma velocidade surpreendente. Quando prontos, saíram ele e Emílio, rumo à Sala de Estar. Atrás deles, o olhar atento de Adão não lhes deixava escapar o mínimo gesto. Emílio, quase constrangido, tentou estabelecer algum contato.

     - E você? Não se chama Adão, se chama?
     - Não posso responder.
     - Vamos, guardo o segredo. Como é o seu nome?
     - Nomes e biografias reais só são permitidos a iniciados.
     - Mas, me aprovaram no conselho, ontem, não aprovaram?
     - Condicionalmente.
     - Como assim, condicionalmente?
     - Meu caro, - Lionel tomou a palavra - você foi aprovado, sim, mas só se a proposta de Eva der certo. Ainda assim, mesmo que dê certo, nada pode ser feito até a sua efetiva iniciação.

     Poder-se-ia dizer que Adão sorriu, se ele por acaso sorrisse. Mas, inexpressivo como sempre, deixou passar um certo ar de satisfação. Aquele interrogatório o incomodava bastante, e Lionel percebera isto. Por isso, mesmo, tentou dar o assunto por encerrado.

     Chegando na Sala de Estar, havia uma verdadeira recepção instalada, como se esperasse um grande evento de gala. Distribuídos no ambiente, dezenas de pessoas, todos vampiros. Cada qual olhava mais secamente para os recém-chegados. Era, no mínimo, desconcertante, e uma sensação de angústia tomava Emílio violentamente. Percebendo isto, Lionel usou de sua influência para tranqüilizá-lo. Lionel, sim, era suficientemente cínico, a ponto de não ligar para os olhares. Já estava acostumado a ser a ovelha negra do rebanho, havia muito tempo.

     Com a ajuda de Lionel, Emílio pôde saborear detidamente cada um dos vinhos da casa, ignorando os olhares corrosivos dos presentes. Experimentou cada sensação, e os acompanhamentos indicados. A certa altura, Emílio reconheceu o sabor familiar de um vinho em particular.

     - Este é o mesmo vinho que eu guardava em casa...
     - Um primor, não é?
     - Excelente! Mas, como eu posso reconhecer?
     - Alguns enólogos reconhecem...
     - Sim, gosto de vinho, mas estou longe de ser um enólogo.
     - Sei, sei. Por isto estou apresentando cada sabor em particular. Prove este, agora.

     Emílio prova o vinho vermelho. Acha-o delicioso, mas questiona.

     - E, por que você está fazendo isso?
     - Diga-me o que achou do vinho.
     - Muito bom.
     - Não. Descreva-o.
     - Ele é bem encorpado, tem baixa acidez, lembra aquele Bordeaux, que você me mostrou há alguns minutos, mas é levemente diferente...
     - Prossiga...
     - A concentração é soberba, sem dúvida, mas não é doce demais. - Lionel fazia um gesto que continuasse - e... deixe-me ver... - tomou mais um gole - além de tudo, é suave, passa aveludado pela boca... mas, por que você quer saber de tudo isso?
     - Perfeito! Você deu a descrição que um especialista daria a esta safra do Opus One. Faria isto, antes de se tornar vampiro?
     - Claro que não!
     - Entende, agora, por que lhe apresento os vinhos? São seus sentidos, meu caro. Seus sentidos estão bastante apurados. É hora de experimentar o mundo, de aprender o que é bom!

     Emílio parecia finalmente se entregar ao evidente hedonismo de Lionel, e deliciar-se mais e melhor com os vinhos. Aprendia, também, a lidar com os olhares, por conta própria. Ou com ajuda dos vinhos, tanto faz. Mas, quando tudo começava a parecer calmo e sem maiores expectativas, chegou Michelle Delacroix, como um tufão. O olhar grave, um ar urgente, vinha como quem chegasse do nada, e concentrou os olhares interessados de todos os presentes.

     - Todos, à sala de reunião. É urgente!

     Sem pânico, mas com uma evidente pressa, todos seguiram-na até a sala de reunião. Dentro da sala, todos pareciam saber onde se sentar, embora a escolha dos lugares fosse, para a maioria, aleatória. Assim, logo estavam todos reunidos e acomodados. A Srta. Delacroix não esperou mais do que isso para começar a falar.

     - Eles não vêm para a reunião. Eles vêm para um extermínio. Querem começar pelas lideranças, que sabem estar aqui. Querem nos desarticular, para facilitar a caçada. Descobri, ainda, que os planos não são novos, nós apenas demos a ocasião.

     Em outra ocasião, ouvir-se-ia um burburinho tomar o ambiente. Houve, no entanto, uma intensa troca de olhares. Olhares cortantes, capazes de matar alguém, dirigiram-se para Lionel. Alguém se pronunciou.

     - Quem poderia ter sido tão ingênuo, a ponto de acreditar que haveria acordo?
     - Todos nós acreditamos! - Alguém interveio.
     - É verdade, mas, agora já é tarde para tal. Precisamos decidir o que fazer. - Declarou sabiamente a Srta. Delacroix.

     A resposta veio quase em uníssono. A decisão geral era o que se podia esperar. Entregar-se-ia Lionel.
     Eva não revelara onde ficava a Sede do Conselho no Brasil, mas eles logo descobririam. A ordem era evacuar, e deixar apenas Lionel e o jovem rapaz. Ou levar o rapaz, não faria diferença. Ele estava previamente condenado à morte.

     Eva e Adão ficariam responsáveis por garantir que os dois vampiros não saíssem, e estariam livres para fugir quando tal missão estivesse cumprida. "Alea jacta est"*, pensou Emílio, talvez acompanhando inconscientemente o raciocínio de Lionel, que balbuciava algo como "Le scommesse sono state effettuate..."**. Mas, calada consigo, a Srta. Delacroix não parecia estar disposta a deixar tudo a cargo da sorte. Algo deveria ser feito. E seria.


Pablo de Araújo Gomes





A Pedidos, breve glossário:

* "Alea jacta est", latim, "a sorte está lançada", ou "os dados estão lançados". Esta frase é atribuída a Júlio César, quando teria ingressado com suas legiões em territórios em que não era permitido fazê-lo. A proibição se justificava no passado de golpes militares para tomar o poder em Roma. A versão mais cristanizada desta frase seria o popular "seja o que Deus quiser!".

** "Le scommesse sono state effettuate...", italiano, "As apostas foram feitas...". No contexto, ambos personagens pensaram a mesma coisa, mas traduziram o pensamento em diferentes palavras.