sábado, 13 de fevereiro de 2010

Capítulo V - O Conselho

     Terminadas as escadas, os viajantes se viram em uma casa muito bonita. Não parecia, no entanto, mais que isso: uma casa muito bonita. A decoração antiga, de bom gosto, parecia carregar o peso dos anos que o próprio edifício não tinha. Mas em nada lembrava um local especial.

     Uma mulher muito simpática os recebeu, e os encaminhou para a espaçosa Sala de Estar onde se acomodaram confortavelmente no sofá. Todos, menos Adão, e Eva, que aguardavam, de pé, por um chamado. Não esperaram muito. Seguiram por um corredor, e não voltaram mais. Alguém ligou um aparelho de som, que Emílio não via. Ouvia, no entanto, uma música, um agradável som ambiente. Procurou de onde vinham, e percebeu que vinham de todos os lados. Havia discretas caixas de som, quase imperceptíveis, espalhadas pelo espaço, e o cômodo parecia ter sido feito para comportar a acústica ideal. Dominava-lhe a extraordinária sensação de ser possível nadar nas ondas sonoras da música tocada. Emílio reconheceu a música: ouviam Chopin.

     A mesma simpática mulher do primeiro momento retornou, e os convidou.

     - Os senhores queiram me acompanhar aos seus aposentos, por favor.

     Lionel foi levado a um quarto de duas camas, onde Adão o aguardava, com a missão de evitar sua fuga. Os gêmeos iriam a quartos individuais, mas pediram um semelhante ao de Lionel, no que foram prontamente atendidos. Emílio ficou com um quarto excelente, uma suíte. Descobriu, ainda, que ficava ao lado do quarto de Eva, e não pôde conter um leve ar de satisfação. "É muita sorte!", pensou. A casa, era maior do que parecia. Era um palacete, com dezenas de quartos. E havia muito mais que quartos, no palacete. O que denunciava não ser uma simples residência era o sem-número de salas destinadas a reuniões e questões administrativas.

     Emílio preparava-se para tomar um bom banho, quando alguém, subitamente - e sem pedir licença-, abre a porta de seu quarto. Escoltado por Adão, Lionel Giardini entra no quarto de Emílio gritando, com ar de zombaria.

     - Vamos lá, Emílio, o conselho já está reunido!
     - Eu iria tomar um banho, será que não...
     - Não, não dá tempo, não! Em que planeta você está? Eu disse que o conselho já está reunido, não que está a caminho!

     Lionel sai, seguido por Emílio, aborrecido, e por Adão, atento a cada movimento do irreverente Lionel. Estes entram em uma sala, mas fazem Emílio esperar. Minutos depois, ele é convidado a entrar. É uma sala grande, uma mesa de reunião ao centro, com uns vinte lugares. O seu está reservado, em evidência. Emílio senta-se.

     - Emílio, - começa a falar um homem em destaque, com sotaque acentuadamente francês - sabe por que estamos aqui?
     - Para ser sincero, não. Talvez...
     - Estamos quebrando quase todos os protocolos, Emílio, por conta da urgência da situação. Saiba, a priori, que, para todos os efeitos, nada disto está acontecendo. Você é capaz de guardar este segredo com a sua vida, Emílio?
     - Sim, senhor... - Respondeu prontamente Emílio, intimidado com a forte autoridade na voz de seu interlocutor.
     - Escute-me, então. Este Conselho Vampírico está extraordinariamente reunido porque foi quebrado um acordo de vital importância para a sobrevivência de nós, vampiros. Senhorita Michelle Delacroix, por favor, explique-nos, a todos, a situação.

     Para a Surpresa de Emílio, Eva se levantou e iniciou um detalhado relatório.

     - Senhoras, senhores, todos nós conhecemos... - hesitou, olhou para Emílio - Quase todos nós, aqui presentes, conhecemos a história dos vampiros, pelo menos a partir do renascimento de nosso grande líder. Sabem que, depois dos surtos de ataques realizados por vampiros no século XVIII, precisamos nos organizar para evitar a nossa extinção e garantir o convívio pacífico entre nós e os demais humanos. Emílio, nós nos organizamos em uma espécie de sociedade secreta, como a maçonaria ou os illuminatti, mas fora do conhecimento dos humanos não-vampiros. O que você vê aqui é um conselho internacional que, extraordinariamente está se reunindo no Brasil e em português, para que você possa acompanhar a a reunião. Como eu dizia, os caçadores de vampiros também se organizaram, formando a Acção Internacional para a Caça aos Vampiros, a AICV. Este conselho aqui presente, órgão máximo de nossa organização, realizou um acordo com a AICV, de não matarmos mais humanos, e criar um controle rigoroso das vampirizações, para garantir que nós, vampiros, não nos alastrássemos demais na terra a ponto de perdermos o controle sobre nossos semelhantes. Em troca, eles poderiam treinar os seus melhores caçadores, mas somente matariam os vampiros degredados, situação em que faríamos tudo para facilitar. Criou-se uma relação simbiótica entre as duas sociedades. A novidade é que, após os últimos quase trezentos anos de sucesso no cumprimento do acordo, acabamos de descumprir nossa parte, e a AICV, sob nova direção, aguardava apenas o mínimo deslize para recomeçar a caçada.

     - Qual foi o específico descumprimento do acordo? - perguntou um dos líderes presentes.

     - Não permitimos que matassem Lionel Giardini, senhor. Esta infração já foi fruto de uma outra: o Sr. Giardini vampirizou um jovem não iniciado. - os olhares seguiam na mesma direção em que a mão da Srta. Delacroix apontava, qual seja, na direção de Emílio -  Em um dia, apenas, Senhor, descumprimos os dois mais importantes termos de nosso trato. Mas, se entrarmos em guerra declarada contra a Acção, eles certamente, sendo a sua nova diretoria tão capiciosa, acabarão com nosso segredo, e tirarão proveito da opinião pública a respeito. Seremos, novamente, demonizados, e irremediavelmente caçados!

     Todos a escutavam, e examinavam Emílio com um olhar penetrante. Era preciso tomar uma decisão, isso era óbvio. Mas, o que vazer? Deixar que matassem Lionel significava permitir a morte de um inocente. Mas recusar-se a tal poderia desencadear uma caça generalizada. Não era preciso ler pensamentos, para entender qual era a opinião geral. Deveriam entregar Lionel, mesmo que isso representasse o óbvio sacrifício de Emílio.

     - Mas, senhores, - interveio a Michelle, notando para onde rumavam os pensamentos - embora pareça-nos óbvia a resposta de nosso enigma, peço-lhes que poupem o jovem rapaz. Ele não pediu para ser vampiro, sequer teve escolha. Podemos realizar, postumamente, todos os passos para a iniciação, e obedecer a ritualística. Há alguma razão para ele estar entre nós, alguma razão que ainda desconhecemos, mas há algo que me diz que ele será importante para nós.

     - Você está propondo, Srta. Delacroix, que corramos o risco de uma guerra que seria mortal para todos nós? Ele está entre nós porque Lionel é um irresponsável, ou porque ele é maquiavélico o suficiente para usar o garoto para se salvar.

     - Mas, ele é um inocente. - apontava, novamente, para Emílio - Vocês conhecem o juramento que todos fizemos!
     - Todos nós somos inocentes, Srta. Delacroix. E, lembre-se, só quem teria condições de apadrinhar o jovem, para ele ser iniciado, é quem o transformou. No caso, um degredado, que nem mesmo poderia estar aqui nesta sala, conosco.

     - Eu o apadrinho, Senhor, e farei de Lionel meu instrumento para tal. E, mais uma coisa, podemos evitar esta guerra. Manteremos Lionel Giardini prisioneiro, de modo que ele estará impedido de fazer qualquer besteira, e o entregaremos pessoal e diretamente aos caçadores.
     - Conhece os riscos de tais promessas, Srta. Delacroix?
     - Sim, Senhor!
     - Assume estes riscos? Responsabiliza-se pessoalmente por esta missão?
     - Sim, Senhor!
     - Ousa, mesmo, seguramente, arriscar seu cargo, sua posição e prestígio, com esta missão? Pior, sabe que, se arrisca sua palavra em nome do conselho, põe sua cabeça à prova, diante deles.
     - Estou ciente de tudo, sim, Senhor.

     Todos da mesa se entreolharam, insondáveis. Emílio não entendia, mas, antes que entendesse, o líder da reunião retomou.

     - Vós conheceis as regras e protocolos da casa, vós votastes, e anuncio o veredicto. Eva irá, escoltada por Adão, reunir-se com a diretoria da Acção Internacional para a Caça aos Vampiros. Se o acordo for firmado, será conforme o proposto. Caso contrário, sacrificaremos o jovem, para salvar-nos a todos, entregando o Sr. Giardini. Se você tem certeza do que está fazendo, Srta. Delacroix, está autorizada. A que horas pretende partir?
     - Logo ao amanhecer, senhor.
     - Mas, sequer anoiteceu. Não acredita que sua demora provocará a ira da Acção?
     - Fontes seguras me informaram que eles estão a caminho, senhor. Até o amanhecer, não há como saber onde se hospedarão.
     - O que vêm fazer no Brasil?
     - Certamente, souberam desta reunião extraordinária, senhor. Mas, não conseguiram chegar em tempo hábil para estarem entre nós. Irei como mensageira, para avisá-los que apenas os aguardamos para nos reunirmos, e os guiarei para cá.
     - Eles irão preferir algum lugar mais neutro. Aqui, estarão muito vulneráveis.
     - Senhor, eles vêm em grande número. Não seríamos páreo para eles, caso algo acontecesse, e eles sabem disso.
     - E por que, então, nos propõe que nos arrisquemos a tal ponto?
     - Temos um trunfo, senhor. Nós os dividiremos.

     Novamente, os olhares. Será mesmo possível que estivessem debatendo algo?

     - Assim seja feito, Srta. Michelle Delacroix. Todos estão de comum acordo.

     Cada qual se recolheu para o seu quarto. O cheiro da adrenalina era sufocante. Os olhares dirigidos a Emílio, também. Lionel, perceptivo como só ele, acalmou seu jovem pupilo, e o encaminhou a seu quarto.
Emílio deitou-se, febril, e dormiu pesadamente.


Pablo de Araújo Gomes