sábado, 6 de fevereiro de 2010

Capítulo IV - Rumo ao Conselho

     A Van era bastante espaçosa, e acomodava a todos com conforto. O veículo, negro como a noite, tinha as janelas impenetráveis, incapazes de deixar entrar a mínima luz. Era tão hermeticamente fechado que, para haver alguma comunicação entre o motorista e os passageiros, utilizava-se um pequeno aparelho, semelhante a um interfone. O motorista ficava só na sua cabine, e claramente não era vampiro. Algo nele denunciava isso, e ele parecia sinceramente nada saber a respeito da existência de vampiros.

    Entraram, então, na parte de trás, que era, em condições normais, completamente isolada da luz exterior. Mas, sendo então noite, descerraram as hermeticamente fechadas janelas, para o ar entrar. Emílio, mesmo bêbado, deliciava-se com o coquetel de cheiros que vinha da rua. Quis botar a cabeça para fora, como faria um cachorrinho de estimação, mas Eva não deixou. "Ele acaba se matando, antes de chegar ao conselho!", disse, apenas.

     Lionel, pensativo, já começava a perceber como era importante se tornar amigo do rapaz. Gostava de sua liberdade, e queria reconquistá-la, diante do conselho. Mas tornar Emílio um vampiro novato benquisto perante os superiores, um novo membro da comunidade, o salvaria de serem jogados, juntos, à própria sorte. Puxou Emílio para si.

     - Sou responsável por ele, sim? - falou, em tom enigmático.

     De fato, Lionel era responsável por Emílio. E, este, muito dependente daquele, em quase todos os sentidos. Sua vida - a de Emílio - simplesmente dependia da sobrevida de Lionel. E há mais. Um veterano que vampiriza alguém pode ser capaz de exercer influência e sedução inequiparáveis sobre o novato, geralmente tornando-o uma espécie de pupilo ou seguidor para até além de conquistada a independência.

     Lionel, após o aparente desinteresse dos primeiros momentos, começava a encarar esta dependência de Emílio, e sua influência sobre ele como um meio de vencer os riscos que se somavam nos últimos tempos. Fazer uso desse contexto era a garantia de sua sobrevivência e segurança, por mais algum tempo.

     Induzido por Lionel, Emílio dormiu pesadamente. Quando o dia quis raiar, todas as janelas foram fechadas, para evitar a entrada da luz do sol.

     Emílio acordou, a cara amassada, desconfiado. A custo, reconheceu, a vista embaçada, os novos amigos, e se deu conta da viagem. Encolheu-se, envergonhado, ao lembrar do papelão de sua embriaguez. Perguntou onde estavam, mas ninguém lhe respondeu. Todos dormiam, na verdade, dentro do carro, e Emílio ficou surpreso em poder enxergar tão bem, naquela escuridão.

     Emílio olhou para Eva, e tentou se recompor, para não fazer feio. Nossa, como ela era linda! Ele não era capaz de resistir. Ela cochilava, recostada à janela fechada.  Quase se lhe podia atribuir um suave sorriso nos lábios, enigmáticos. Digna do mistério atribuído à Mona Lisa, mas muito melhor. Ela era realmente o foco de sua atenção, dormindo tão graciosamente que lhe parecia impossível.

     Jamais ouvira falar em anjos ruivos. Na verdade, já estudara que os cabelos cor de fogo já foram muito associados à ação ou presença do diabo, e às bruxas, no decorrer da História. Mas, se houvessem anjos ruivos, teriam aquela aparência. Seu rosto era delicado, não magro e anguloso, como tentam fazer crer os padrões de beleza do mundo da moda, mas curvo, quase redondo. Sua carnuda maçã do rosto era tão suave, que quase lhe pareceria ruborizada, não fosse uma vampira. Ou seria a escuridão? Ele gostava de suas sardas, também. Elas lhe conferiam um charme especial. Seu queixo era igualmente delicado. Já os olhos, grandes, mas plenamente proporcionais a suas formas, lhe davam um ar de plena juventude. Ela pareceria um bebê, não fosse o ar sério e maduro dos momentos mais graves, ou o ar quase lascivo que carregava quando, às vezes, ficava pensando, distraída, a morder os lábios.

     Ele não resistiu e se aproximou. Inspirou profundamente, quase um palmo de distância, ao sentir aquele cheiro inexplicável. Ele reconheceu, na sinfonia que formava seu cheiro, algo que não sabia conhecer. Era o cheiro de mulher, de fertilidade, talvez do próprio cio. E havia mais, mas não conseguia distinguir, por mais que a cheirasse, detidamente.

     Seus olhos se perderam, novamente, nos belos seios sardentos, pois sua nova posição favorecia um olhar mais detido. Encantadores! Era o mínimo que se podia dizer. Evitando a tentação de despi-los, subiu o olhar até encontrar a boca carnuda, bem desenhada, super feminina. Havia batom nela, ele pôde perceber, mas não era chamativo. Parecia, mesmo, querer restituir a aparência natural, por sobre a palidez natural de vampira, pois era de um vermelho que parecia ter sempre estado ali. Como poderia saber? Havia tão pouco tempo que a conhecera.

     Quase não resistindo à tentação de beijá-la, sentindo sua respiração fresca, ele iria fechar os olhos. Iria, se não houvesse sentido a intensidade quase abrasiva, com que dois olhos furiosos lhe observavam. Era ela, que acabara de acordar, e o fuzilava com o olhar. Ele não tinha como se desculpar. Calado estava, e assim ficou, a própria respiração tornando-se difícil.

     Quando ele já não olhava, ela chegou a sorrir, satisfeita. Talvez pelo efeito de seu olhar, pois realmente se incomodava com a invasão do rapaz; talvez, tinha que admitir, por pura lisonja, por provocar um efeito tão devastador sobre o belo jovem. Neste caso, explica-se a rapidez com que desfez a expressão alegre do rosto. Não dormiria mais, pensou. E ele sentiu, ainda mais forte, o desconcertante cheiro de mulher tomar o carro fechado. Seria sua imaginação? Ao seu lado, Lionel abria um sorriso quase venenoso de tão libertino.

     Na verdade, Lionel começava a despertar, atendendo ao chamado daquele odor que o maravilhava. O carro fechado estava concentrando no ar o grito dos hormônios femininos, deixando Eva desconcertada, e diluindo as incertezas de Emílio.

     - Nem pense! - Eva apontou furiosa o dedo para Lionel.

     Ele, que fizera menção de se aproximar, recuou e ficou na defensiva, como um gato acuado, preparado para dar um bote. Eva era muito mais velha que ele, e gozava de muito respeito e autoridade diante de quase todos. Tocá-la sem sua permissão era a chave para perder qualquer apoio no conselho. Na medida em que a tensão tomava o espaço, diluía o aroma inebriante de luxúria, e o efeito que ele exercia sobre Lionel. Mas, Emílio, diante daquela confusa mistura de adrenalina e feromônios, parecia cada vez mais estar prestes a perder o controle.

     Quando a situação estava definitivamente insustentável, o carro reduziu a velocidade, e desceu, suavemente, uma longa rampa. Parou. Subitamente, após poucos segundos, a porta do veículo se abriu. Era o motorista. Haviam chegado. Emílio saiu, rapidamente, do carro, e se deparou com uma garagem enorme, com mais duas vans semelhantes, e um carro esporte, todos escuros, aparentemente para disfarçar os vidros intranspassáveis pela luz.

     Entre uma e outra vaga livre, da vasta garagem, Emílio andava, as pernas bambas, um instinto violento lhe tomando o corpo, combinando uma fúria que nunca sentira e a intensa luxúria que não o deixava. Lionel correu para junto dele, tocou-lhe um ombro e o acalmou com um olhar que poderia muito bem ser descrito como lúgubre. Emílio o abraçou, num sentimento confuso, que misturava a experiência negativa do vinho e as informações negativas que sabia sobre ele a um sentimento que atribuiria a seu pai, se o houvesse conhecido.

     Adão, Caim e Abel acordavam e saíam do carro, quando se depararam, surpresos, com a inesperada cena. Uma porta se abriu. Dava para uma escada simples. Foi fácil deduzir que estavam no subterrâneo. Emílio observava os olhares quase reverentes de seus pares, ao subir os três lances de escada, e compreendeu que já estava na sede do conselho. A viagem terminara.

Pablo de Araújo Gomes